Mais que uma palavra, é o poder de cada cidadão, encontrando a responsabilidade de todos
A emblemática frase: “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito”, atribuída a Winston Churchill, talvez permaneça atual justamente porque a democracia não promete um mundo perfeito, mas oferece algo essencial: a possibilidade de corrigir erros, sem destruir as liberdades. No Brasil, essa escolha está inscrita na própria Constituição Federal, que define o país como Estado Democrático de Direito e estabelece a cidadania, a dignidade da pessoa humana e o pluralismo político entre seus fundamentos.
Democracia, portanto, não é simplesmente colocar uma urna diante do cidadão, a cada dois anos, apertar alguns números e voltar para casa. É participar, acompanhar, questionar, fiscalizar, ouvir opiniões diferentes e compreender que o poder político pertence, em última instância, ao povo. O próprio Tribunal Superior Eleitoral também destaca que o voto é um dos principais instrumentos pelos quais a população exerce sua soberania e que uma escolha consciente pressupõe conhecer propostas e buscar informações confiáveis.
Sempre entendi que democracia também significa compromissos firmados: responsabilidade de quem governa, de quem legisla, de quem julga e, igualmente, de quem vota. Não existe cidadania plena quando o eleitor entrega seu voto sem conhecer ideias, propostas, trajetórias e consequências das decisões que estão sendo apresentadas à sociedade. O voto é um poder individual que, multiplicado por milhões de consciências, pode definir os caminhos de uma nação.
Mas democracia não pode ser confundida com a simples prevalência da maioria sobre a minoria, porque a verdadeira democracia também precisa proteger direitos fundamentais e garantir igualdade perante a lei. Não por outro motivo, a nossa Constituição Federal estabelece como objetivos da República construir uma sociedade livre, justa e solidária, reduzir desigualdades e promover o bem de todos, sem discriminações. Por isso, defender a democracia significa também olhar para quem possui menos voz, menos recursos e menos oportunidades, assegurando que os mais vulneráveis não sejam esquecidos nas decisões do Estado.
É justamente por isso que considero perigosa qualquer tentativa de substituir a liberdade pelo autoritarismo, o diálogo pela imposição e as instituições pela vontade de uma única pessoa ou grupo. A história brasileira demonstra o valor das liberdades recuperadas com a Constituição de 1988, que restabeleceu direitos fundamentais e o voto direto para a Presidência da República após o período de ditadura militar. Democracia pode ter defeitos, pode ser lenta e pode produzir escolhas das quais discordamos, mas possui uma virtude extraordinária: permite que a sociedade mude seus caminhos por meios institucionais, pacíficos e legítimos.
Também precisamos compreender que liberdade de expressão não significa liberdade para deixar de ouvir, e que divergência política não precisa transformar o cidadão em inimigo do cidadão. Uma democracia madura exige o direito de dizer “eu penso diferente” e, ao mesmo tempo, a humildade de perguntar “por que você pensa assim?”, sem qualquer tipo de censura. O respeito ao outro, às instituições, às regras do jogo e ao resultado legítimo das eleições é parte da responsabilidade coletiva de preservar aquilo que pertence a todos nós.
No fim das contas, o regime democrático não é paraíso, nem promete governantes honestos, partidos perfeitos ou decisões justas. Mas também tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as outras demais formas, que têm sido experimentadas ao longo do tempo, pois ela oferece algo talvez ainda mais importante, no caso a possibilidade permanente de escolher, fiscalizar e corrigir. Por isso, quando chegar diante da urna, cada cidadã e cada cidadão deve compreender a dimensão daquele gesto e avaliar, livremente e de maneira consciente, quais propostas e representantes considera compatíveis com seus valores e com o interesse público. Votar é mais que exercer poder, pois significa participar e assumir responsabilidade. Defender a democracia é reconhecer que liberdade, igualdade, justiça e dignidade não são privilégios de alguns, mas direitos que precisam ser preservados para todos.