por Rogério Farah
Caminhando pelas ruas movimentadas da cidade, percebo como a multidão caminha apressada enquanto carrega no peito um silêncio perturbadoramente ensurdecedor. Em pleno século XXI, em um mundo cada vez mais dominado por uma comunicação globalizada, gera espanto que a solidão seja uma reclamação tão presente no cotidiano da população. Essa contradição contemporânea nos força a olhar para trás e tentar compreender o que perdemos no caminho para a hiperconectividade.
Olhando as telas dos celulares, vejo resgatada uma onda de nostalgia que parece denunciar uma carência coletiva por laços mais profundos. Afinal, qual razão poderia justificar tamanha adesão à brincadeira, que tomou conta das redes sociais, enaltecendo os 'anos 80' recentemente? Talvez seria uma forma velada de reafirmar que antigamente os relacionamentos humanos eram mais saudáveis? A busca por memórias de um tempo analógico sugere uma tentativa quase desesperada de reencontrar calor em afetos que não dependem de algoritmos.
A desconexão interior avança à medida que nos cercamos de telas e interações superficiais que não preenchem a alma. Diante desse cenário, será que a humanidade está comparando os tempos atuais à um vazio cercado de nada? Além disso, será que em plena era da 'inteligência artificial’, os seres humanos estão tentando acionar a 'inteligência natural', para avaliar os reais prós e contras da modernidade? Essa busca por discernimento revela que o progresso tecnológico não substitui a necessidade genuína de sermos compreendidos.
Não podemos ignorar os desdobramentos psicológicos e sociais dessa distância invisível que nos separa uns dos outros. Saibam que esses questionamentos são particularmente importantes agora, especialmente em função inclusive durante o transcurso da Campanha Setembro Amarelo, para chamar a atenção sobre os efeitos nocivos do afastamento das pessoas, com reflexos no aumento dos casos de depressão profunda, como causas potenciais até mesmo de episódios de auto-extermínio cometidos. O isolamento emocional prolongado constrói um abismo silencioso de onde muitos não conseguem sair sozinhos.
Pausar a rotina para escutar o sofrimento alheio é o primeiro passo para reconstruirmos pontes humanas de acolhimento. Nesse contexto de urgência, reflexões são sempre bem-vindas e até mesmo necessárias para reacender a empatia em nossas relações diárias. Reconhecer a dor do outro é a única forma de transformar a frieza dos dias atuais em presença verdadeira.
Diante desse desafio coletivo, precisamos unir forças antes que o silêncio do isolamento se torne definitivo. Sem dúvida, temos que trabalhar em conjunto, contra o ciclo vicioso que começa com a sensação terrível da solidão e chega aos atos extremos, que provoca reações de maior isolamento social. Somente com afeto constante e escuta atenta poderemos devolver o verdadeiro sentido de pertencer àqueles que se sentem perdidos.