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Postado em: 25/09/2026 - 11:56 Última atualização: 25/09/2026
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Máscara da humildade: Indubitavelmente, um dia ou outro, a verdadeira face da pessoa é descoberta...

por Rogério Farah

Há pessoas que carregam consigo, durante boa parte da vida, a marca de uma existência difícil, conhecendo de perto as limitações impostas pela pobreza e pelas poucas oportunidades. Algumas precisaram da ajuda de instituições filantrópicas, de pessoas generosas e até da solidariedade alheia para atravessar a infância, a adolescência e a juventude. São histórias que, naturalmente, despertam respeito, porque revelam o quanto alguém pode lutar para superar as adversidades e conquistar um lugar ao sol.

O problema começa quando a ascensão social e a chegada a uma importante função pública parecem apagar justamente aquilo que deveria permanecer mais vivo: a humildade. A sabedoria popular ensina que “quando se quer conhecer alguém, entregue o poder para essa pessoa”, porque é diante da autoridade que muitas máscaras começam a cair. E algumas delas caem de maneira tão dolorosa que deixam à mostra não apenas a arrogância, mas também uma preocupante transformação na maneira de tratar aqueles que um dia estiveram ao seu redor.

É triste perceber que alguém que conheceu a necessidade, que recebeu auxílio e que provavelmente experimentou na própria pele a importância de uma mão estendida possa, depois de alcançar determinada posição, passar a agir como se os demais fossem inferiores. Infelizmente o caráter dessa pessoa, se é que um dia existiu, foi corrompido com o ego inflado pela melhora de vida, fazendo com que antigas dificuldades fossem convenientemente esquecidas. O poder, que deveria ser instrumento de serviço, passa então a ser utilizado como uma espécie de pedestal pessoal.

Não estou falando de prosperidade, porque melhorar de vida não é pecado e conquistar conforto depois de uma trajetória difícil é absolutamente legítimo. O que incomoda é quando a mudança financeira, social ou profissional vem acompanhada da perda da capacidade de olhar para o outro com respeito, especialmente para aqueles que continuam enfrentando as mesmas dificuldades que um dia também fizeram parte daquela história. Afinal, ninguém deveria precisar se tornar pequeno para que uma autoridade consiga se sentir grande.

Eis aí um intrigante dilema, pois o verdadeiro sucesso é marcado pela diferença entre quem venceu as dificuldades e quem simplesmente venceu os outros. A pessoa verdadeiramente humilde não precisa anunciar suas origens humildes, porque suas atitudes continuam revelando gratidão, respeito e humanidade, mesmo quando as circunstâncias da vida lhe oferecem poder, dinheiro ou prestígio. Já a humildade utilizada apenas como cartão de apresentação pode ser uma máscara bastante eficiente — até o dia em que o poder exige que ela seja retirada.

E existe uma ironia particularmente dolorosa nesse tipo de transformação: aqueles que mais admiraram a trajetória de superação são, muitas vezes, os primeiros a sofrer a decepção. “Decepção só vem de quem admiramos...”, porque de quem nunca esperamos nada, pouco podemos perder; mas daqueles em quem depositamos respeito, esperança e confiança, esperamos ao menos coerência entre o passado contado e o presente vivido. Talvez a maior riqueza conquistada por alguém não seja o cargo que ocupa, mas a capacidade de continuar sendo humano depois que finalmente deixou para trás os dias de necessidade.

No fim das contas, cargos passam, mandatos terminam, posições mudam e a vida inevitavelmente coloca cada pessoa diante do espelho da própria história. O poder pode até revelar quem alguém é, mas são as atitudes que dirão se aquela humildade da juventude era verdadeira ou apenas uma máscara conveniente para sobreviver até chegar aonde queria. Porque ninguém precisa ter vergonha de ter sido pobre, mas deveria ter vergonha de esquecer quem lhe estendeu a mão quando ainda não tinha poder para estendê-la a ninguém.

 

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