Encontro apontou soluções, mas foi marcado pela ausência de representantes da Prefeitura e da instituição hospitalar
A Rádio Imbiara acompanhou, nesta quarta-feira (15), uma audiência pública que discutiu os atrasos nos repasses destinados à Santa Casa de Misericórdia de Araxá e os impactos diretos dessa situação nos trabalhadores da saúde. O encontro reuniu representantes da sociedade civil, profissionais da área e lideranças políticas, mas ocorreu sem a presença da Prefeitura e da própria Santa Casa, o que gerou críticas dos organizadores.
Um dos solicitantes da audiência, o vereador Jales André, avaliou que o debate foi produtivo, apesar das ausências. Segundo ele, o principal objetivo foi dar visibilidade ao problema e buscar caminhos para solucioná-lo. Durante a discussão, foi destacado que o atraso nos repasses compromete diretamente o pagamento dos salários, criando uma cadeia de dificuldades para os trabalhadores. Para Jales, o encontro permitiu não apenas expor a situação, mas também avançar em propostas, como a adoção da contratualização para agilizar os repasses. Ele ressaltou que “conseguimos fazer um debate assertivo sobre esse problema e apontar caminhos de solução”, reforçando que agora é necessário diálogo entre as partes para que as medidas sejam efetivamente implementadas.
Ausência de autoridades e repasse emergencial
Também solicitante da audiência, a vereadora Maristela Dutra criticou a ausência da Prefeitura e da Santa Casa, destacando que o objetivo era justamente promover um debate transparente e equilibrado. Para ela, a participação de todos os envolvidos seria essencial para evitar versões unilaterais dos fatos. Ainda assim, ela avaliou que a mobilização surtiu efeito imediato, já que, segundo relatado, houve repasse de valores em atraso na véspera da audiência. Maristela destacou que “por conta da marcação dessa audiência, a prefeitura repassou tudo que estava em aberto”, o que resultou no início dos pagamentos aos funcionários.
Apesar disso, ela pontuou que os atrasos recorrentes continuam sendo um problema estrutural e criticou o modelo atual de repasses, considerado burocrático. A proposta defendida durante o encontro é a substituição do modelo de convênios por contratos assistenciais, que permitiriam maior agilidade e previsibilidade nos pagamentos.
Relatos expõem impacto direto nos trabalhadores
Um dos momentos mais marcantes da audiência foi o depoimento de profissionais da saúde que enfrentam atrasos salariais frequentes. A técnica de enfermagem Pérola Caroline, que atua no Hospital Casa do Caminho, relatou dificuldades financeiras enfrentadas ao longo do último ano devido à irregularidade nos pagamentos.
Segundo ela, os atrasos têm sido mensais, obrigando trabalhadores a recorrerem a empréstimos e crédito para cumprir compromissos básicos. Pérola destacou que “é um descaso com o funcionário que está sempre trabalhando todos os dias”, e relatou situações como atraso no 13º salário e dificuldades até mesmo em datas importantes, como o Natal. Ela afirmou que “a gente está entrando numa bola de neve de dívida, porque não está recebendo o que é de direito”.
A profissional também apontou inconsistências nos pagamentos mais recentes. Embora parte dos funcionários tenha recebido no dia 10, outros ainda aguardavam o salário até o dia 15, inclusive profissionais em férias. Segundo ela, não há clareza nos critérios adotados, o que aumenta a insegurança entre os trabalhadores.

Estiveram presentes os vereadores Professor Jales André e Maristela Dutra. Foto: Caio César
Problema recorrente no sistema de saúde
Atrasos em repasses públicos para instituições filantrópicas de saúde não são um problema exclusivo de Araxá. De acordo com levantamento da Confederação das Santas Casas de Misericórdia, muitas dessas instituições enfrentam dificuldades financeiras crônicas devido à defasagem na tabela do SUS e à irregularidade nos repasses. Mais informações podem ser consultadas no site oficial da entidade:
Esse cenário afeta diretamente a manutenção dos serviços e, principalmente, os trabalhadores, que acabam sendo os mais impactados pelas instabilidades financeiras.
Caminhos apontados
Ao final da audiência, ficou evidente que há consenso sobre a necessidade de mudanças no modelo de financiamento e gestão dos repasses. A contratualização foi destacada como alternativa viável para reduzir a burocracia e garantir maior regularidade nos pagamentos.
Apesar dos avanços no debate e do repasse emergencial realizado, os participantes reforçaram que a solução definitiva depende de compromisso e diálogo entre Prefeitura, Santa Casa e demais envolvidos. Enquanto isso não ocorre, trabalhadores seguem convivendo com incertezas e dificuldades para manter suas finanças em dia.
Em nota, a Prefeitura informou, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, que realizou o pagamento do convênio destinado ao salário dos colaboradores da Casa do Caminho no dia 8 de abril, dentro do prazo previsto. Ainda segundo o comunicado, como a instituição não dispunha de recursos suficientes para a quitação integral da folha salarial, foi necessário aguardar outros repasses do município para complementar o pagamento aos trabalhadores.