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Postado em: 26/06/2026 - 17:47 Última atualização: 26/06/2026
Por: Manoelita Chagas - Portal Imbiara

CREAS reforça importância da denúncia e do fortalecimento familiar no combate à violência contra idosos em Araxá

Campanha Junho Violeta mobiliza população para reconhecer sinais de violência, ampliar denúncias e fortalecer a rede de proteção à pessoa idosa

Embora a violência física seja a forma mais lembrada, os especialistas alertam que ela representa apenas uma das modalidades de violação de direitos. Foto: Manoelita Chagas

Durante entrevista ao vivo concedida ao programa Imbiara Notícias, a psicóloga Camila Bontempo, responsável pelo atendimento à pessoa idosa no CREAS de Araxá, e o psicólogo Daniel Augusto, referência técnica da Proteção Social Especial, destacaram o papel da rede socioassistencial na prevenção e no enfrentamento da violência contra idosos. A conversa integrou as ações da campanha Junho Violeta, voltada à conscientização sobre os direitos da população idosa.

Segundo os profissionais, o CREAS atende situações em que já existe suspeita ou confirmação de violação de direitos, oferecendo acolhimento, escuta qualificada, orientação às famílias e acompanhamento sistemático dos casos. Diferentemente do CRAS, que atua prioritariamente na prevenção, o CREAS trabalha em situações de maior complexidade social.

Camila explicou que os atendimentos chegam por diferentes canais, como o Disque 100, Ministério Público, encaminhamentos de outros serviços da rede e também por demanda espontânea da população. Ela ressaltou que o serviço busca compreender a realidade de cada família antes de definir as estratégias de acompanhamento. "A gente faz um acolhimento, uma escuta, apoio familiar e orientação adequada conforme cada caso."

Violência vai muito além da agressão física

Embora a violência física seja a forma mais lembrada, os especialistas alertam que ela representa apenas uma das modalidades de violação de direitos. Casos de abandono, negligência, violência psicológica, patrimonial, financeira e até violência sexual também fazem parte da realidade enfrentada pelo serviço.

Os sinais podem ser discretos e exigir atenção da comunidade. Mudanças bruscas no comportamento do idoso, isolamento, marcas físicas inexplicáveis, falta de cuidados básicos ou situações recorrentes de gritos e conflitos dentro da residência podem indicar que algo não está bem.

Daniel destacou que a rede de apoio formada por vizinhos, amigos e profissionais da saúde exerce papel fundamental na identificação dessas situações. "Qualquer mudança significativa na realidade daquele idoso merece atenção. Muitas vezes são as pessoas próximas que conseguem perceber que alguma coisa mudou."

O papel do CREAS é acolher, orientar e fortalecer vínculos

Os profissionais fizeram questão de esclarecer que o CREAS não realiza investigação policial. O trabalho consiste em acolher a pessoa idosa, construir um diagnóstico social, elaborar um plano de acompanhamento junto à família e articular ações com outros órgãos quando necessário.

Esse plano é construído coletivamente, envolvendo familiares e equipe técnica, respeitando a autonomia da pessoa idosa sempre que possível.

Daniel ressaltou que o objetivo não é impor decisões à família, mas construir soluções em conjunto. "A família participa da construção desse plano. A equipe acompanha, orienta e monitora para garantir que esse idoso tenha seus direitos preservados."

Quando a violência acontece dentro da própria família

Uma das principais dificuldades enfrentadas pelo CREAS é justamente quando a violência parte de familiares. Mesmo nessas situações, o foco inicial é tentar reconstruir os vínculos, desde que isso seja seguro para a pessoa idosa.

Camila explicou que cada situação é analisada individualmente e que o histórico familiar influencia diretamente nas decisões tomadas pela equipe. "A gente tenta fortalecer esse vínculo familiar. Se percebemos que existe possibilidade de reconstrução dessa relação, fazemos reuniões, acompanhamentos e buscamos envolver todos os familiares."

Daniel acrescentou que nem sempre os conflitos surgem apenas na velhice. Muitas vezes existem histórias de rompimentos, abandono ou violência ocorridas décadas antes, o que exige uma análise cuidadosa de cada contexto.

Projeto Mãos que Cuidam amplia suporte às famílias

Durante a entrevista, os profissionais também destacaram os resultados do projeto "Mãos que Cuidam", desenvolvido pela assistência social de Araxá. A iniciativa oferece cuidadores para auxiliar famílias que enfrentam dificuldades físicas, emocionais ou financeiras no cuidado diário da pessoa idosa.

Segundo Daniel, o projeto permite que muitos idosos permaneçam em suas próprias casas, preservando vínculos afetivos e evitando institucionalizações desnecessárias.

Camila lembrou que o acompanhamento não contempla apenas o idoso, mas toda a família, já que muitos cuidadores acabam adoecendo devido à sobrecarga. "Não é só o idoso que recebe acompanhamento. Toda a família também é assistida, porque cuidar também exige cuidado."

Conscientização pode explicar aumento das denúncias

Conforme informado pelos profissionais, o CREAS acompanha atualmente cerca de 30 famílias envolvendo situações relacionadas à pessoa idosa. Nos primeiros meses deste ano, aproximadamente 40 casos passaram pelo serviço.

Para Daniel, esse crescimento não significa necessariamente aumento da violência, mas pode refletir uma população mais consciente sobre a importância de denunciar. "Não sei até que ponto os casos aumentaram ou até que ponto eles passaram a aparecer porque antes não eram vistos. As campanhas estimulam as pessoas a reconhecerem essas situações e procurarem ajuda."

Envelhecimento exige preparação da sociedade

O Brasil passa por um acelerado processo de envelhecimento populacional. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a população com 60 anos ou mais continua crescendo e deverá representar uma parcela cada vez maior dos brasileiros nas próximas décadas. Os dados podem ser consultados no portal oficial do instituto: IBGE – Projeções da população.

Diante desse cenário, os profissionais reforçam que envelhecer com qualidade depende tanto de políticas públicas quanto da participação da sociedade na proteção dos direitos da pessoa idosa.

Ao final da entrevista, Daniel deixou um apelo para que a população não ignore situações suspeitas. "Na dúvida, denuncie. O Disque 100 funciona 24 horas por dia, recebe denúncias anônimas e encaminha os casos para toda a rede responsável pelo atendimento."

Como buscar ajuda

O CREAS de Araxá está localizado na Rua Calimério Guimarães. O telefone para orientações é (34) 3668-0592.

Denúncias de violência contra pessoas idosas também podem ser feitas de forma anônima pelo Disque 100, serviço nacional de Direitos Humanos disponível 24 horas por dia. Informações sobre o canal estão disponíveis em Disque Direitos Humanos – Disque 100.