Campanha reforça a importância do diagnóstico precoce de Alzheimer, fibromialgia e lúpus e o impacto das doenças na rotina das famílias
O mês de fevereiro é marcado pela campanha Fevereiro Roxo, um movimento de conscientização que busca dar visibilidade a três doenças crônicas que ainda cercam muitas dúvidas: Alzheimer, fibromialgia e lúpus. Criada em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, a iniciativa reforça que, apesar de não terem cura, essas doenças têm tratamento e exigem diagnóstico precoce e acompanhamento contínuo para garantir mais qualidade de vida aos pacientes.
Em entrevista, o médico especialista em saúde mental Dr. João Sacramento destacou que as três condições são diferentes entre si, mas compartilham um ponto em comum: o impacto prolongado na vida de quem convive com elas. “São doenças crônicas, que acompanham o paciente por muitos anos e também afetam diretamente a rotina da família. Informação e acolhimento fazem toda a diferença nesse processo”, afirmou.
Ao falar sobre o Alzheimer, o especialista alertou para um erro frequente: considerar a perda de memória como parte natural do envelhecimento. “O idoso pode, sim, ficar com a memória mais lenta, mas não é normal esquecer fatos recentes o tempo todo ou perder a autonomia para tarefas do dia a dia. Isso precisa ser investigado”, explicou.
O Alzheimer é a forma mais comum de demência e provoca a perda progressiva das funções cognitivas. Segundo o médico, nas fases iniciais é comum que a pessoa esqueça acontecimentos recentes, enquanto lembranças mais antigas permanecem preservadas. Com o avanço da doença, podem surgir alterações de humor, irritabilidade, distúrbios do sono e mudanças de comportamento. “Muitas vezes a família estranha quando o paciente começa a ficar mais agressivo ou agitado, mas isso faz parte do quadro clínico”, ressaltou.
Dr. João também destacou a importância do diagnóstico precoce. “Os medicamentos que temos hoje não curam o Alzheimer, mas ajudam a retardar a progressão. Quanto antes começar o tratamento, mais tempo conseguimos preservar a autonomia do paciente”, disse.
Sobre a hereditariedade, ele ponderou que a maioria dos casos não está diretamente ligada à genética. “Existem formas familiares, geralmente mais precoces, mas são minoria. Os principais fatores de risco continuam sendo idade avançada, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e pouca estimulação mental”, explicou. Ele reforça que manter o cérebro ativo é uma forma de proteção. “Ler, estudar, aprender coisas novas e manter a vida social ativa ajudam a criar uma reserva cognitiva, que pode amenizar os efeitos da doença ao longo do tempo.”
O uso da cannabis medicinal também foi comentado durante a entrevista. Segundo o psiquiatra, ela não melhora a memória. “A cannabis não tem evidência de benefício para cognição, mas pode ser útil em alguns casos para controlar sintomas comportamentais, como agitação e agressividade, quando outros tratamentos não funcionaram. Ainda assim, não é a primeira opção”, esclareceu.

Dr. João Sacramento participa quinzenalmente do programa Imbiara Notícias, da Rádio Imbiara 91,5 FM. Foto: Caio César/Portal Imbiara
Além dos impactos cognitivos, o Alzheimer também traz forte carga emocional, principalmente nas fases iniciais. “Quando a pessoa percebe que está perdendo capacidades, pode surgir tristeza, ansiedade e até depressão”, disse. Para os familiares, o desafio também é grande. “A sobrecarga do cuidador é muito comum. Por isso, é fundamental dividir responsabilidades e buscar rede de apoio. Cuidar de quem cuida também é parte do tratamento”, reforçou.
Outro foco do Fevereiro Roxo é a fibromialgia, uma síndrome de dor crônica generalizada que dura mais de três meses e não aparece em exames de imagem ou laboratoriais. “É uma dor real, mas não há inflamação ou lesão que a justifique. O problema está na forma como o sistema nervoso processa a dor”, explicou o médico.
Ele conta que, além da dor espalhada pelo corpo, os pacientes costumam relatar cansaço constante, dificuldade de concentração e sono não reparador. “A pessoa acorda como se não tivesse dormido. Isso vai desgastando física e emocionalmente”, afirmou. A relação com a saúde mental também é frequente. “Muitos pacientes têm histórico de depressão ou ansiedade, e a própria dor crônica pode desencadear ou piorar esses quadros.”
O tratamento, segundo o especialista, precisa ser multidisciplinar. “Não existe uma solução única. O cuidado envolve medicamentos, psicoterapia, atividade física orientada e, muitas vezes, fisioterapia”, disse. Ele faz um alerta sobre a automedicação. “O uso frequente de anti-inflamatórios por conta própria pode trazer riscos sérios para rins, fígado e coração. O tratamento deve sempre ser acompanhado por um profissional.”
Assim como no Alzheimer, a cannabis medicinal vem sendo estudada para casos de dor crônica. “Há pesquisas em andamento e alguns pacientes relatam melhora, mas ainda não é tratamento de primeira linha. Cada caso precisa ser avaliado individualmente”, explicou.
Para o médico, a principal mensagem da campanha é que sintomas persistentes não devem ser ignorados. “Esquecimentos que atrapalham a rotina, dores generalizadas sem causa aparente, cansaço extremo e alterações de humor são sinais de alerta. Mesmo sem cura, essas doenças têm tratamento, e quanto antes a gente age, melhor é a qualidade de vida do paciente e da família”, concluiu.