Saúde pública, enfrentamento ao etarismo e adaptações no mercado de trabalho são alguns desafios urgentes!
Nosso país está passando por uma profunda transformação demográfica, marcada pelo crescimento acelerado da população idosa e pela redução proporcional do número de crianças e jovens. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstram que esse processo, tradicionalmente associado aos países mais desenvolvidos, está acontecendo no território brasileiro, em velocidade particularmente elevada. Mais do que uma mudança na composição da população, trata-se de uma transformação que exigirá novas respostas do poder público, da sociedade, do sistema de saúde e do mercado de trabalho.
Segundo as projeções populacionais do IBGE, a população brasileira com 60 anos ou mais passou de aproximadamente 15,2 milhões de pessoas, em 2000, para 33 milhões, em 2023, representando 15,6% dos habitantes do País. A estimativa é que, em 2070, esse contingente alcance aproximadamente 75,3 milhões de pessoas, correspondendo a 37,8% da população brasileira. A redução da fecundidade, o aumento da expectativa de vida e os avanços nas condições de saúde e de sobrevivência estão entre os principais fatores responsáveis por essa mudança.
Qual a situação do SUS, diante do envelhecimento da população
Uma das áreas mais pressionadas por essa transformação será a saúde pública, especialmente o Sistema Único de Saúde (SUS), que precisará ampliar sua capacidade de atendimento e reorganizar suas prioridades. Segundo o Ministério da Saúde, aproximadamente 80% das pessoas idosas brasileiras dependem exclusivamente do SUS, o que evidencia a dimensão da responsabilidade do sistema. O aumento da demanda por consultas, exames, medicamentos, cirurgias, reabilitação, atendimento domiciliar e acompanhamento de doenças crônicas exigirá investimentos em infraestrutura, profissionais especializados, tecnologia e ampliação da atenção básica.
O desafio, entretanto, não consiste apenas em oferecer mais consultas e procedimentos, mas em desenvolver um modelo de assistência capaz de acompanhar as necessidades específicas de cada indivíduo ao longo do envelhecimento. Hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, problemas osteoarticulares, alterações cognitivas e limitações de mobilidade exigem acompanhamento permanente, prevenção e integração entre diferentes especialidades. Também será necessário fortalecer a assistência domiciliar, os serviços de reabilitação, o apoio aos cuidadores e as políticas de promoção do envelhecimento saudável, evitando que a idade seja automaticamente associada à incapacidade ou à dependência.
Etarismo: o preconceito que precisa ser enfrentado
Outro problema que ganha importância nesse cenário é o etarismo, também conhecido como preconceito ou discriminação por idade, caracterizado por estereótipos, atitudes negativas e tratamento desigual em razão da faixa etária. Ele se manifesta quando pessoas mais velhas são consideradas improdutivas, ultrapassadas, incapazes de aprender, dependentes ou desnecessárias, seja nas relações familiares, nos ambientes profissionais, nos serviços públicos ou na convivência social. Conforme consta no Relatório Global sobre Etarismo, a Organização Mundial da Saúde (OMS), alerta que essa discriminação prejudica a saúde, o bem-estar, a participação social e a qualidade de vida das pessoas, exigindo ações educativas, institucionais e legislativas para combatê-la.
O enfrentamento dessa prática no Brasil, encontra respaldo na Constituição Federal e no Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003, com alterações posteriores), que asseguram proteção contra a discriminação e garantem o direito ao trabalho, à dignidade e à participação social. O artigo 27 do Estatuto, por exemplo, proíbe a discriminação e a fixação de limite máximo de idade para admissão em qualquer trabalho ou emprego, ressalvadas as exigências decorrentes da natureza da atividade. Portanto, combater o etarismo não significa apenas defender o respeito às pessoas mais velhas, mas reconhecer sua autonomia, experiência, capacidade intelectual e contribuição para o desenvolvimento coletivo.
O mercado de trabalho precisa se adaptar
O envelhecimento demográfico também provocará mudanças importantes no mercado de trabalho, exigindo que empresas e instituições revejam seus critérios de contratação, capacitação e permanência profissional. Com o aumento da longevidade e a possibilidade de carreiras mais longas, será necessário ampliar oportunidades de atualização tecnológica, qualificação profissional e reinserção de trabalhadores com mais idade, além de combater práticas discriminatórias nos processos seletivos. Ambientes adaptados, jornadas flexíveis, valorização da experiência, programas de aprendizagem permanente e integração entre diferentes gerações poderão transformar o envelhecimento em uma oportunidade, e não em um obstáculo econômico.
Diante desse cenário, torna-se indispensável que os gestores públicos brasileiros elaborem e fortaleçam políticas públicas, que considerem o envelhecimento como uma questão estratégica para o futuro. Isso envolve planejamento de longo prazo nas áreas de saúde, previdência, assistência social, educação, habitação, mobilidade urbana e geração de empregos, além de investimentos na formação de profissionais especializados e no apoio às famílias e aos cuidadores. As esferas governamentais no Brasil precisam compreender que viver mais deve significar uma existência melhor, com saúde, autonomia, segurança financeira, oportunidades de trabalho e respeito, transformando o avanço da longevidade em uma conquista efetiva para toda a sociedade.
Uma reflexão necessária: o envelhecimento da população não deve ser tratado como um problema causado pelas pessoas que vivem mais, mas como uma nova realidade social que exige planejamento, responsabilidade e capacidade de adaptação do Estado e da sociedade.
Afinal, envelhecer não é uma condição de uma parcela isolada da população: é uma possibilidade que acompanha a trajetória de todos nós.