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Postado em: 17/05/2026 - 21:22 Última atualização: 17/05/2026
Por: Manoelita Chagas - Portal Imbiara

Literatura, memória e pertencimento marcam a programação nacional do Fliaraxá em Araxá

Encontros deste sábado (16), no Teatro CBMM, reuniram autores brasileiros e internacionais em debates sobre identidade, território, afetos, política e experiências humanas

Os debates passaram desde montanhas a desertos, territórios indígenas, memórias familiares e experiências afetivas. Fotp: Divulgação Fliaraxá/Portal Imbiara

A programação nacional do 14º Fliaraxá movimentou o Teatro CBMM, em Araxá, no sábado (16), com uma sequência de mesas que aproximaram literatura, memória, política, espiritualidade e identidade. Escritores, pesquisadores e artistas brasileiros e internacionais participaram dos encontros que dialogaram diretamente com o tema desta edição do festival, “Meu Lugar no Mundo”, inspirado na obra do geógrafo Milton Santos, patrono do evento em seu centenário de nascimento. 

Realizado entre os dias 14 e 17 de maio, o Fliaraxá chega à 14ª edição reunindo autores nacionais, convidados internacionais e atividades gratuitas em diferentes espaços culturais da cidade. O festival é promovido pela Associação Cultural Sempre um Papo e tem como proposta discutir literatura, território, pertencimento e experiências humanas a partir de diferentes linguagens e trajetórias. 

Travessias pessoais e emocionais

Abrindo a programação da tarde, o escritor, atleta e produtor mineiro Gustavo Ziller participou da mesa “Escalando Sonhos: o que senti no topo do mundo”, mediada por Ricardo Ramos Filho. Ao revisitar a experiência de ter escalado o Monte Everest, Ziller descreveu o local não apenas como uma conquista esportiva, mas como um espaço de contemplação e transformação interior.

Durante a conversa, o autor relacionou a travessia física da montanha a experiências emocionais marcantes de sua vida, como a separação dos pais e a mudança da mãe para a Itália. Para ele, os maiores desafios humanos não estão necessariamente nos lugares extremos do planeta, mas nos processos internos que cada pessoa enfrenta ao longo da vida. “As maiores montanhas que a gente escala estão dentro da gente”, afirmou.

Violência, memória e ternura

Na sequência, o escritor paraense Airton Souza apresentou o romance “O mar é longe”, em mesa mediada pelo jornalista Matheus Leitão. Finalista dos prêmios Oceanos e São Paulo de Literatura e vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, o autor falou sobre como experiências pessoais de perda, violência e vulnerabilidade atravessam sua escrita.

Ao relembrar o assassinato do irmão, a morte dos pais e episódios de violência doméstica vividos na infância, Airton relacionou essas experiências aos temas presentes em sua obra, como desigualdade social, garimpo, grilagem e violência estrutural no interior do país.

Apesar da dureza dos relatos, a conversa também destacou a ternura como elemento central de sua literatura. O escritor relembrou familiares que o ajudaram em momentos de extrema dificuldade e afirmou que o afeto é uma força indispensável em sua escrita: “Eu só posso escrever alguma coisa (…) se tiver alguma coisa nela marcada pela ternura.”

Masculinidades, humor e política

Uma das mesas mais aguardadas da tarde reuniu a escritora zambiana Zukiswa Wanner e a autora Bianca Santana. Em conversa sobre o livro “Homens do Sul”, Zukiswa abordou masculinidades, relações afetivas e os comportamentos sociais que moldam os homens contemporâneos.

Entre momentos de humor e reflexões políticas, a autora comentou que mulheres frequentemente compreendem mais profundamente os homens e suas fragilidades do que eles próprios. A discussão também passou pelo livro “Diário de uma Flotilha por Gaza”, escrito a partir de experiências da autora em embarcações que seguiam em direção ao território palestino sob risco de ataques.

Mesmo tratando de temas delicados, a mesa foi marcada pelo tom leve e pelas reflexões sobre liberdade, convivência e humanidade.

Literatura e outros mundos possíveis

A escritora, psicóloga e ativista indígena Geni Núñez apresentou o livro “Felizes por Enquanto: Escritos Sobre Outros Mundos Possíveis”, em mesa mediada por Marcelino Freire. Primeiro livro de poesia da autora, a obra serviu como ponto de partida para uma conversa sobre criação literária, linguagem e resistência.

Ao longo do encontro, Geni discutiu a relação entre território, existência e povos indígenas, além de abordar temas como preservação ambiental, violência territorial e afetos. Para ela, retirar os povos originários de seus territórios significa também romper vínculos essenciais de vida e identidade: “Quem nos tira a terra, nos tira a vida.”

A autora também leu poemas sobre relações humanas, amor e a dificuldade de lidar com a impermanência das experiências. Ao final da mesa, recebeu aplausos de pé do público presente no Teatro CBMM.

Homenagem a Milton Santos

Patrono desta edição do Fliaraxá, o geógrafo Milton Santos foi homenageado em mesa conduzida pela pesquisadora Nina Santos, neta do intelectual baiano, com mediação do cientista político Sérgio Abranches.

Reconhecido internacionalmente como um dos principais pensadores da geografia crítica e humana, Milton Santos dedicou sua trajetória a refletir sobre território, cidadania, desigualdades e pertencimento. Sua obra inspira diretamente o tema desta edição do festival, “Meu Lugar no Mundo”. 

Durante o encontro, Nina compartilhou memórias familiares e falou sobre o desafio de construir uma trajetória acadêmica própria tendo como referência uma figura tão importante para o pensamento brasileiro. “É uma posição muito difícil, a de ser neta de Milton Santos”, comentou.

Encerramento com José Eduardo Agualusa

Fechando a programação da noite, o escritor angolano José Eduardo Agualusa apresentou o romance “Tudo sobre Deus”, também com mediação de Sérgio Abranches. O livro acompanha um homem que decide se isolar em uma igreja abandonada no deserto do Namibe enquanto revisita memórias e reflexões sobre a vida.

Ao comentar a origem da obra, Agualusa explicou que sua escrita costuma nascer de imagens e revelou que a narrativa surgiu após encontrar uma igreja solitária no deserto angolano. A partir dessa cena, desenvolveu uma história marcada por solidão, arrependimento, perdão e despedida:“Tudo que aprendi sobre Deus cabe no buraco de uma agulha. O resto é a agulha.”

A conversa também abordou temas como memória, tempo, literatura e as transformações do jornalismo e da crítica literária contemporânea.

Com debates que passaram por montanhas, desertos, territórios indígenas, memórias familiares e experiências afetivas, o sábado do Fliaraxá consolidou a proposta do festival de discutir o mundo a partir das experiências humanas e dos lugares — físicos ou simbólicos — que cada pessoa ocupa e constrói ao longo da vida.