Polícia Militar amplia estratégias de atendimento, aposta na prevenção e destaca importância da denúncia para romper o ciclo da violência
A violência contra a mulher segue como um dos principais desafios da segurança pública em Araxá, especialmente quando ocorre dentro de casa, longe dos olhos da sociedade. Durante entrevista à Rádio Imbiara, representantes da Patrulha de Proteção à Mulher da Polícia Militar detalharam como o trabalho vem sendo estruturado para ampliar o atendimento às vítimas e atuar de forma mais eficaz na prevenção e interrupção desses casos.
Atuação e estrutura do atendimento
Nos últimos anos, a atuação da PM passou por mudanças para dar conta da complexidade desse tipo de ocorrência. O modelo atual se baseia em três níveis de atendimento, que vão desde a resposta imediata até o acompanhamento prolongado das vítimas. De acordo com o sargento André, esse fluxo permite não apenas atender a ocorrência no momento do fato, mas também acompanhar o desdobramento da situação dentro do ambiente familiar, já que, como ele explica, “a polícia hoje atua em casos de violência doméstica em três frentes”, incluindo o atendimento inicial, a chamada visita tranquilizadora e o trabalho posterior voltado à quebra do ciclo da violência.
Esse acompanhamento é considerado essencial porque muitos casos não começam com agressões físicas. A cabo Cristina explica que a violência, na maioria das vezes, se instala de forma silenciosa e progressiva. Segundo ela, “a violência pode começar de forma mais branda, muitas vezes na psicológica, e evoluir até a física”, o que dificulta a identificação por parte da própria vítima.
Crescimento dos casos e conscientização
Em Araxá, os números reforçam a necessidade desse olhar mais atento. Foram mais de mil registros relacionados à violência contra a mulher em 2024, conforme dados da segurança pública. Apesar de o município ser considerado tranquilo em relação a crimes mais graves, o cenário dentro dos lares exige atenção constante. O sargento André observa que esse tipo de crime apresenta características específicas, já que ocorre em um ambiente onde há pouca fiscalização. Nesse contexto, ele destaca que “dentro de casa é muito difícil a fiscalização”.
O aumento no número de registros, no entanto, também reflete maior conscientização. Campanhas e divulgação dos canais de denúncia têm incentivado mais mulheres a procurarem ajuda, reduzindo a subnotificação e permitindo uma atuação mais eficaz das autoridades.
Medidas de proteção e atuação policial
Outra mudança importante está relacionada à legislação, que permite a investigação de muitos casos independentemente da vontade da vítima. Isso garante mais segurança e evita que a denúncia seja interrompida por medo ou pressão.
Entre os principais instrumentos está a medida protetiva, que pode ser mantida enquanto houver risco. O agressor pode ser afastado do lar rapidamente e, em caso de descumprimento, pode ser preso. Além disso, a atuação da polícia nem sempre é ostensiva. Como explica o sargento André, “não necessariamente uma viatura vai até a casa dela”, já que existem formas seguras e discretas de atendimento por meio da rede de apoio.
Fatores que dificultam a denúncia
Mesmo com os avanços, muitas mulheres ainda enfrentam obstáculos para romper o ciclo da violência. A dependência financeira e a preocupação com os filhos estão entre os principais fatores. A cabo Cristina ressalta que “a dependência financeira e a preocupação com os filhos dificultam a denúncia”, o que exige um trabalho conjunto com a assistência social para garantir suporte e autonomia.
Outro ponto recorrente nas ocorrências é o uso de álcool e drogas, que contribui para o aumento das agressões, especialmente em finais de semana e períodos festivos.
Prevenção e papel da sociedade
O trabalho da Patrulha de Proteção à Mulher vai além da repressão e inclui ações preventivas, como campanhas, palestras e atividades educativas em escolas e empresas. A proposta é ampliar o acesso à informação e fortalecer a rede de proteção.
A participação da população também é fundamental. Denúncias podem ser feitas de forma anônima pelos telefones 190, em casos de emergência, e 180. A patrulha também disponibiliza atendimento via WhatsApp pelo número (34) 9992-1190 para orientações e denúncias não emergenciais.
Ao final, a principal mensagem reforçada é de que nenhuma mulher precisa enfrentar essa situação sozinha. Como resume o sargento André, “ela não está sozinha e pode buscar ajuda”, destacando que o objetivo do trabalho é interromper a violência e possibilitar novos caminhos para essas famílias.