Doença viral pode provocar alterações respiratórias, gastrointestinais e neurológicas
A cinomose é uma doença viral infectocontagiosa que afeta cães e pode evoluir para quadros graves, incluindo alterações neurológicas, sequelas permanentes e até a morte. Apesar de não existir um medicamento específico para eliminar o vírus, a vacinação e o atendimento veterinário precoce são medidas importantes para reduzir os riscos da doença.
O assunto foi discutido nesta sexta-feira (9), durante o programa Vida de Pet, da Rádio Imbiara, em Araxá. O médico veterinário Kleber Rosa, que atua na clínica de pequenos animais e com ultrassonografia veterinária, explicou como ocorre a transmissão, quais sinais exigem atenção dos tutores e como é feito o tratamento.
Segundo o profissional, a cinomose é causada por um vírus que circula principalmente por meio do contato com secreções de animais infectados. “É uma doença infectocontagiosa. Então, ela é uma doença que tem o potencial de passar de um animal para outro animal”, explicou.
Quais são os sintomas da cinomose?
Um dos desafios no reconhecimento da doença é que os primeiros sinais podem ser semelhantes aos de outros problemas de saúde. Entre as manifestações iniciais estão apatia, perda de apetite, vômitos e diarreia, que pode apresentar sangue. O animal também pode desenvolver sintomas respiratórios, como secreção nasal e ocular.
Em fases mais avançadas, a cinomose pode atingir o sistema nervoso, provocando tremores musculares, convulsões, perda de equilíbrio e dificuldades para caminhar. Em alguns casos, o cão também perde a capacidade de se alimentar ou beber água sem ajuda.
Kleber Rosa alerta que nem todos os animais apresentam sintomas neurológicos, e alguns podem estar infectados sem demonstrar sinais evidentes no início. Por isso, esperar que o quadro se agrave antes de procurar ajuda pode dificultar o tratamento. “Quanto mais tempo o animal está começando a manifestar sintomas, muitas das vezes [...] esse quadro vai agravando rapidamente”, destacou o veterinário durante a entrevista.
A médica veterinária Letícia Cardoso, que também participou do programa, chamou a atenção para a possibilidade de os tutores confundirem os sinais da doença com problemas menos graves, como verminoses ou alterações passageiras. A orientação é procurar atendimento veterinário diante de sintomas incomuns, especialmente quando o cão não está com a vacinação em dia.
Como ocorre a transmissão?
A transmissão da cinomose acontece principalmente pelo contato direto com animais infectados e suas secreções. O vírus também pode ser disseminado indiretamente por objetos, tecidos, calçados e outros materiais contaminados, embora essa não seja a forma mais comum de contágio.
De acordo com Kleber, as condições do ambiente influenciam a sobrevivência do vírus. Locais abertos, ensolarados e com pouca umidade tendem a oferecer condições menos favoráveis à sua permanência. Já ambientes úmidos e com matéria orgânica podem favorecer uma sobrevida maior.
Por esse motivo, a recomendação é manter os cães doentes afastados de outros animais e reforçar os cuidados de higiene. Após visitar clínicas veterinárias ou locais com animais infectados, os tutores também devem evitar levar possíveis materiais contaminados para os espaços frequentados pelos próprios cães.
A cinomose é específica dos cães e não é considerada uma zoonose, ou seja, não é transmitida dos cães para os seres humanos. Os gatos também não são acometidos por essa doença.
Vacinação é a principal forma de prevenção
Durante a entrevista, os veterinários reforçaram que a vacinação é a principal medida preventiva contra a cinomose. As vacinas múltiplas, como a V8 e a V10, incluem proteção contra a doença, além de outras enfermidades caninas.
A vacina antirrábica oferecida nas campanhas públicas, por outro lado, protege contra a raiva e não substitui a vacinação múltipla. Por isso, os tutores precisam verificar se o cartão de vacinação está atualizado e seguir o protocolo recomendado pelo médico veterinário, incluindo os reforços necessários ao longo da vida do animal.
Embora a vacinação reduza significativamente os riscos, ela não representa garantia absoluta de que o cão nunca desenvolverá a doença. O estado de saúde do animal e sua resposta imunológica também influenciam a proteção.
Kleber orienta que a avaliação veterinária seja feita antes da vacinação, principalmente quando o cão apresenta sinais de doença. Vacinar um animal que já está doente pode dificultar a avaliação do quadro e não substitui o tratamento necessário.
Existe tratamento para a cinomose?
Não há um antiviral específico que elimine o vírus da cinomose. O tratamento é realizado com medidas de suporte, de acordo com os sintomas e a gravidade do quadro, para ajudar o organismo do animal a enfrentar a infecção e controlar possíveis complicações.
Isso pode incluir suporte nutricional, cuidados com a hidratação e tratamento de infecções oportunistas, que podem surgir porque a doença compromete o sistema imunológico. A possibilidade de recuperação depende de fatores como a condição clínica do cão, a evolução da doença e a resposta ao tratamento. “Existe a possibilidade de cura. Muitos animais, principalmente quando tratados no início dos sintomas, conseguem, sim, melhorar, se recuperar da doença”, afirmou Kleber.
Mesmo após a recuperação, alguns cães podem apresentar sequelas, principalmente quando o sistema nervoso é afetado. Entre elas estão tremores musculares persistentes e outras alterações neurológicas.
Em quadros muito graves, quando o animal não responde às medidas terapêuticas e apresenta sofrimento intenso, a eutanásia pode ser considerada pelo médico veterinário como último recurso, após avaliação da qualidade de vida e das possibilidades de tratamento.
Cuidados com outros cães da casa
Quando um cão recebe diagnóstico de cinomose, os demais animais que vivem no mesmo ambiente também precisam de atenção. A exposição ao vírus não significa que todos serão infectados, mas o risco depende de fatores como a situação vacinal e as condições de saúde de cada um.
A orientação é isolar o animal doente, evitar passeios e contatos desnecessários e procurar orientação veterinária para avaliar os demais cães. A limpeza e a desinfecção do ambiente também são importantes.
Segundo Kleber, quando um cão morre em decorrência da doença, não existe um prazo único que garanta que o ambiente esteja seguro para receber outro animal. Durante o programa, ele recomendou reforçar a higienização e, como medida de precaução, manter o local isolado por um período de três a seis meses. A preparação do ambiente e a vacinação do novo animal devem ser discutidas com um veterinário, especialmente quando se trata de um filhote.
A prevenção também depende da responsabilidade coletiva. Os animais em situação de rua podem ficar mais vulneráveis à doença por não contarem com acompanhamento e vacinação regulares, o que torna importantes as iniciativas de proteção animal e imunização.
A principal recomendação dos profissionais é não esperar o aparecimento de sintomas graves para buscar atendimento. Manter as vacinas em dia e procurar avaliação veterinária diante de qualquer alteração na saúde do cão são medidas essenciais para aumentar as chances de um diagnóstico precoce e de uma recuperação favorável.