Histórias de imigrantes que ajudaram a construir Araxá e deixaram marcas na cultura, no comércio e no desenvolvimento da cidade
A história da formação do Brasil é marcada pela pluralidade de povos e culturas que, ao longo dos séculos, desembarcaram no país em busca de novos recomeços e oportunidades. Cada vaga migratória trouxe consigo hábitos, técnicas e sonhos que ajudaram a moldar a identidade, a economia e a sociedade brasileira.
Araxá foi parte ativa deste capítulo. A cidade acolheu imigrantes de diversas partes do mundo que escolheram estas terras para fincar raízes, empreender e construir família. De comerciantes e artesãos a pioneiros na indústria, no trabalho no campo e na prestação de serviços, essas pessoas deixaram um legado de trabalho e dedicação que ajudou a erguer a história do nosso município.

Abdanur Elias nasceu em 19 de abril de 1889, em Carm-Asfur, no norte do Líbano. Casou-se com Lula Salim Nader e, após enfrentar os horrores da guerra e perder três filhas durante a epidemia de gripe espanhola, decidiu buscar melhores condições de vida. Em 1923, a família iniciou o processo de imigração para o Brasil, chegando ao país em 1924. Após passar por Sacramento e Conceição do Araxá, atual Perdizes, estabeleceu-se em Araxá. Na cidade, Abdanur atuou em diferentes atividades comerciais e fundou a Lavanderia Brasil, empreendimento familiar que deu origem à Fábrica de Sabão Araxá. Sua trajetória foi marcada pelo trabalho, pela coragem e pela dedicação à família, contribuindo para o desenvolvimento econômico e social do município.

Jorge Akel nasceu em Alepo, na Síria, provavelmente em 25 de julho de 1887, e chegou ao Brasil em 1920. Após participar da Primeira Guerra Mundial ao lado da França, passou pela Argentina antes de se estabelecer no Brasil. Em São Paulo, conheceu Ward Bittar, conhecida como Rosa, com quem se casou e teve cinco filhos, todos nascidos em Araxá. Na cidade, fundou a Casa São Jorge, estabelecimento comercial conhecido como “Matarazzo”, que vendia tecidos, perfumaria, utensílios domésticos e diversos outros produtos. Além de comerciante, Jorge era conhecido por sua generosidade e por acolher imigrantes sírios que chegavam ao município. Faleceu em 26 de março de 1950, deixando sua contribuição para a história do comércio e da comunidade de imigrantes de Araxá.

Domingos Di Mambro foi um imigrante italiano que chegou a Araxá em 1927, contratado para trabalhar como pedreiro na instalação da Estação Ferroviária da cidade. Após o término das obras, decidiu permanecer no município, onde construiu sua família e fez amizades. Casou-se com Maria Rita Di Mambro e teve nove filhos. Participou de importantes obras de Araxá, como a construção da Santa Casa de Misericórdia, da Igreja Matriz de São Domingos, do Grande Hotel do Barreiro e da Praça Governador Valadares. Após trabalhar por muitos anos na manutenção do Grande Hotel, mudou-se para Anápolis (GO), onde atuou como chefe de disciplina de um colégio estadual. Faleceu aos 78 anos, deixando aproximadamente 120 descendentes e uma contribuição importante para a história da construção civil de Araxá.

Vitória Brunello Nolli nasceu na Itália e chegou ao Brasil em 1897, ainda criança, acompanhada dos pais e irmãos. Em 1910, casou-se com Palmiro Nolli e, após morar em Sacramento, mudou-se para Araxá com a família. Mãe de dez filhos, enfrentou dificuldades após a morte do marido, em 1935, sustentando as crianças com trabalhos de costura e lavagem de roupas. Também atuou como parteira, ajudando muitas mulheres a dar à luz, sem cobrar pelos serviços. Aos 82 anos, aprendeu a assinar o próprio nome e passou a frequentar o Mobral para aprender a ler e escrever. Faleceu em 10 de fevereiro de 1993, aos 102 anos, deixando 208 descendentes e um legado de solidariedade, perseverança e fé.

Luiz Henrique Colombo nasceu na Itália, em 12 de agosto de 1873, e chegou ao Brasil na virada do século XIX para o XX, trazendo consigo suas ferramentas de pedreiro. Após trabalhar em Pirassununga (SP), mudou-se para Araxá em 1905, onde atuou na urbanização das ruas e instalou duas fábricas de tijolos. Casou-se com Virgínia Leonilda Scarpellini, com quem teve sete filhos. Visionário, investiu no turismo local e construiu hotéis para receber visitantes atraídos pelas águas medicinais de Araxá. Em 9 de março de 1929, inaugurou o Hotel Colombo, localizado na estância hidromineral do Barreiro. Faleceu aos 75 anos, deixando um importante legado para a história da hotelaria e do desenvolvimento turístico de Araxá.

Domingos Zema nasceu na região da Calábria, na Itália, e chegou ao Brasil em 10 de junho de 1898, aos nove anos, acompanhado dos pais, irmãos e outros familiares. Após trabalhar em fazendas de café e atuar como motorista em Ribeirão Preto (SP), mudou-se para Araxá em 1918. Na cidade, fundou a empresa de transporte Auto Viação Araxá-Uberaba e, em 1923, inaugurou uma concessionária da Ford. Em 1936, abriu o primeiro Posto Zema, ampliando sua atuação no setor automotivo e de combustíveis. Casado com Catharina Cavallaro, teve sete filhos e construiu uma trajetória marcada pelo empreendedorismo, pelo trabalho e pela visão de futuro. Faleceu em 2 de março de 1980, aos 91 anos incompletos, deixando um legado empresarial que marcou a história econômica de Araxá.

Fernando Parolini nasceu na Itália e chegou ao Brasil em 1895, aos seis anos de idade, acompanhado dos pais e irmãos. Após trabalhar em fazendas de café e atuar na fabricação de cerveja e como padeiro em Cravinhos (SP), mudou-se para Araxá aos 17 anos. Casado com Raquel Soares da Cunha, teve dez filhos e iniciou sua trajetória no comércio local trabalhando como padeiro, até abrir sua própria padaria na antiga Avenida Lavapés, atual Avenida Vereador João Sena. Com o crescimento dos negócios, consolidou a tradição familiar no ramo da panificação. Fernando faleceu em 1963, deixando a continuidade da empresa para o filho José Parolini. O estabelecimento passou a ser conhecido como Padaria Pão Nosso, mantendo a tradição no mesmo endereço e sendo administrado por seus descendentes.

Padre André Aguirre nasceu em 30 de novembro de 1879, em Fitera, na região de Navarra, Espanha. Chegou a Araxá e teve atuação importante na vida religiosa, social e pública do município. Como vigário, participou da construção da igreja e atuou como provedor da Santa Casa de Misericórdia, além de colaborar com projetos de urbanização da cidade. Também fundou o jornal A Voz Parochial, que circulou por três anos, e manteve uma relação próxima com os moradores. Em 1925, recebeu a determinação de deixar Araxá e mudou-se para Franca (SP), mas continuou visitando os amigos. Doente, retornou a Araxá e passou seus últimos anos na Santa Casa, acompanhado por pessoas próximas. Faleceu em 1965, ano em que o município comemorou seu centenário.

Kamel Hassan El-Reheyem nasceu em 5 de setembro de 1949, e sua esposa, Samira Souaid El-Reheyem, em 18 de março de 1951, ambos na cidade de Khyam, no Líbano. Comerciante, Kamel chegou ao Brasil em 1967 e, em 1970, estabeleceu-se em Araxá, acompanhado de Samira. O casal construiu sua história no município e teve quatro filhos: Khaled, Tarek, Cristina e Alissar, contribuindo para a presença da comunidade libanesa na formação social e cultural de Araxá.

Max Neumann nasceu em Nuremberg, na Alemanha, e chegou ao Brasil em 1926, em busca de novas oportunidades após enfrentar dificuldades econômicas e perder o pai ainda jovem. Em 1927, mudou-se para Araxá, onde trabalhou na concessionária Ford de Domingos Zema e, posteriormente, abriu uma oficina mecânica com o amigo Hans Wolf. Em 1936, casou-se com Santina Adelaide Zema, com quem teve dois filhos, Willy e Emílio. Ao longo de sua trajetória, destacou-se pela dedicação ao trabalho e pela atuação na comunidade, tendo sido presidente da Associação Comercial e Industrial de Araxá (ACIA) e sócio-fundador do Rotary Club de Araxá. Durante a Segunda Guerra Mundial, conseguiu ajudar sua mãe, irmã e sobrinhos a deixarem a Europa e virem para o Brasil. Naturalizado brasileiro pelo presidente Getúlio Vargas, escolheu Araxá como sua terra definitiva, onde viveu e contribuiu para o desenvolvimento econômico e social do município.
Fonte: REVISTA O TREM DA HISTÓRIA de Arquivos, Pesquisas e Publicações da Fundação Cultural Calmon Barreto Araxá, maio de 2004 - Ano 14 - №º 37