Profissionais da Apae destacam avanços no paradesporto, mas apontam desafios relacionados à acessibilidade e ao capacitismo
O esporte tem sido utilizado como uma importante ferramenta de inclusão e desenvolvimento de pessoas com deficiência. A atuação da Apae foi tema de entrevista na Rádio Imbiara 91,5 FM nesta quinta-feira (24), dentro das ações relacionadas ao Setembro Verde.
Atualmente, a instituição reúne cerca de 150 atletas, sendo aproximadamente 35 de alto rendimento. O trabalho com o esporte para pessoas com deficiência em Araxá começou há mais de 28 anos e, ao longo desse período, passou por um processo de expansão e formação de atletas.
Segundo o coordenador de esportes da Apae, José Nolli Neto, o esporte tem papel fundamental no desenvolvimento e na autonomia das pessoas com deficiência. “O esporte é reabilitação. (...) O esporte faz com que eles se tornem independentes”, destacou.
Entre os resultados recentes, a Apae conquistou 15 medalhas de ouro, uma de prata e uma de bronze nos Jogos Escolares. No Campeonato Brasileiro de Jovens, foram oito medalhas de ouro, uma de bronze e um recorde brasileiro. Na natação, a atleta Ludmila conquistou três medalhas de ouro e estabeleceu três recordes brasileiros.
Outro destaque é o atleta João Paulo, morador de Ibiá, que treina em Araxá três vezes por semana. Ele conquistou resultados expressivos no lançamento de dardo e estabeleceu um recorde brasileiro. Para José Nolli Neto, a evolução do atleta demonstra os efeitos do trabalho desenvolvido pela instituição. “Ele já chega nas competições mostrando que está lá para ganhar. (...) É um garoto fantástico que só precisava desse empurrão”, afirmou o coordenador.
O supervisor do Centro Paralímpico Brasileiro, Amair Araújo, explicou que a preparação de um atleta paralímpico não é diferente, em termos de dedicação esportiva, da preparação de um atleta olímpico. “O atleta paralímpico e o olímpico têm que treinar, têm que se dedicar, têm as horas de treinamento, as horas de academia, as horas que vão passar pelo psicólogo e pelo nutricionista. Isso não muda”, explicou.
Segundo Amair, a principal diferença está nas necessidades específicas durante viagens e competições, especialmente para atletas que precisam de assistência ou de estruturas acessíveis. “Com relação a viagens, demanda mais apoio. (...) A maioria dos locais que você viaja hoje não tem acessibilidade”, afirmou.
As dificuldades de acessibilidade também fazem parte da rotina das pessoas com deficiência em Araxá. Entre os problemas citados estão a falta de rampas adequadas, de piso tátil, de transporte público adaptado e de acesso a estabelecimentos comerciais.
Amair também destacou a necessidade de combater o capacitismo, além das barreiras físicas. “Você nunca deve tratar a pessoa com deficiência com dó ou piedade. Deixa ele se adaptar à realidade dele. Ele vai fazer as coisas dele no tempo dele”, disse.

José Nolli Neto e Amair Araújo foram os convidados de Carlos Nunes e Natália Fernandes, apresentadores do programa Imbiara Notícias. Foto: Caio César/Portal Imbiara
Um dos exemplos citados durante a entrevista foi o de uma criança com paralisia cerebral que participava de um projeto de natação. Ao ser estimulada a sair sozinha da piscina, inicialmente levou cerca de 15 minutos para conseguir. Com o passar dos dias, reduziu o tempo até realizar a tarefa de forma independente. Para Amair, a experiência mostra como o esporte também pode contribuir para a autonomia.
A instituição também busca ampliar as condições para que os atletas possam participar de competições. Entre as principais necessidades estão recursos para viagens, transporte, alimentação, materiais esportivos e treinamento. A Apae conta com projetos de captação de recursos e recebe apoio do município para transporte e acompanhamento das delegações.
José Nolli Neto destacou que o apoio financeiro é importante para garantir a continuidade do trabalho e ampliar a participação dos atletas em competições. “Quem sabe a gente tem grandes empresas em Araxá para adotar alguns atletas e, aos poucos, com a participação de muitos, quem sabe toda a equipe sendo apoiada pelas empresas de Araxá”, afirmou.
Durante a entrevista, os representantes também defenderam a criação de uma Bolsa Atleta Municipal em Araxá. Segundo Amair, o benefício poderia complementar os programas estadual e nacional e contemplar atletas que apresentam bons resultados, mas não se enquadram nos critérios das bolsas existentes. “Seria muito legal, seria um sonho para nós termos essa Bolsa Atleta Municipal”, afirmou Amair Araújo.
A Apae mantém projetos de iniciação esportiva e atende crianças e jovens, além de atletas de alto rendimento. Os profissionais reforçam que novos participantes podem procurar a instituição para conhecer as atividades.
Araxá também é considerada um centro de referência paralímpico brasileiro. Segundo Amair, existem 133 centros de referência no país, e o reconhecimento está relacionado à parceria entre o município e o Comitê Paralímpico Brasileiro, além dos resultados alcançados na cidade.
José Nolli Neto reforçou o convite para que as famílias conheçam o trabalho desenvolvido pela instituição. “Quem quiser conhecer o nosso trabalho, de segunda a sexta, todos os dias, na parte da manhã, das sete às onze, e das treze às dezessete horas, estão acontecendo os treinamentos. Se quiser ir lá dar uma olhadinha, conhecer, vai ser muito bem recebido lá”, convidou.