Surto iniciado em agosto de 1891 provocou 60 mortes na cidade e deu origem à tradição popular da Mártir Filomena, sepultada durante a epidemia
Araxá enfrentou, em 1891, uma das epidemias mais marcantes de sua história. Conhecida popularmente como “bexiga preta”, a varíola se espalhou pela cidade, provocou mortes, paralisou atividades comerciais e deixou a população em clima de medo e isolamento.
O primeiro caso foi registrado em 5 de agosto daquele ano, na casa do padeiro José Godinho. Segundo o memorialista Sebastião de Affonseca e Silva, em sua obra Monografia do Sr. Sebastião de Affonseca e Silva, publicada em 1914, a epidemia contaminou toda a cidade e provocou 60 mortes.

Imagem histórica reproduzida da obra O Sertão da Farinha Podre, de Ernesto Rosa, que aborda a formação histórica do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba Crédito: Reprodução / Ernesto Rosa – O Sertão da Farinha Podre.
Medo, isolamento e falta de assistência
A epidemia encontrou uma população vulnerável, em um período marcado por dificuldades sanitárias, resistência à vacinação e estrutura médica limitada. Embora Araxá já tivesse realizado uma campanha de vacinação em 1834, o receio da população em relação à imunização dificultava o enfrentamento da doença.

Dr. Eduardo Montandon – considerado o primeiro médico araxaense // Ilustração do século 19 mostra marcas da varíola (imagem: reprodução). Fonte: Fundação Cultural Calmon Barreto // Agência Senado
Durante o surto, o município contou com apenas um médico, Dr. Eduardo Montandon, e um grupo reduzido de enfermeiros, que atuaram em três hospitais improvisados. O comércio fechou, as ruas ficaram desertas e famílias se recolheram para tentar evitar o contágio.
A cidade também recebeu ajuda de Sacramento, que enviou carroças com mantimentos deixados na entrada de Araxá para serem recolhidos pelos moradores.
Um dos episódios mais marcantes foi a atuação de Antônio Izidro, um presidiário que, por já ter contraído varíola e estar imunizado, trabalhou como coveiro durante a epidemia. Ele chegou a ser transferido para Uberaba em meio à crise, o que provocou indignação no memorialista, que defendia o perdão de sua pena pelos serviços prestados.

Sebastião de Affonseca e Silva (1877): Também conhecido como "Memorialista", foi coletor municipal e pai de Dom José Gaspar, o primeiro Bispo de Araxá. Seu acervo histórico é preservado pela Fundação Cultural Calmon Barreto (FCCB).
A história da Mártir Filomena
Entre as vítimas da epidemia, uma mulher conhecida como “Philomena de Tal” entrou para a memória e a religiosidade popular de Araxá. Segundo o relato histórico, ela morreu quando o surto já apresentava sinais de declínio e foi sepultada fora do cemitério, nas proximidades de uma estrada, em uma área rural.



CAPELA MÁRTIR FILOMENA: Construída no entorno do túmulo da “Mártir Filomena”, tida como milagreira. Viveu em Araxá no século XIX, foi excluída do convívio social por ter contraído varíola. O local foi edificado como ato de devoção e, hoje, várias graças lhe são atribuídas. Com o objetivo de manter viva a tradição folclórica, desde 1990 é realizada uma festa popular que mistura cultura, arte, música, folclore e devoção, tudo em louvor à Mártir Filomena, com a promoção de um grande encontro de Folias de Reis realizado anualmente.
Com o passar do tempo, surgiu a tradição de que Filomena teria sido enterrada viva, com fome e sede, como parte de uma simpatia para que a epidemia chegasse ao fim. Essa narrativa, transmitida pelo imaginário popular, não é apresentada como um fato comprovado documentalmente.
A mulher passou a ser conhecida como Mártir Filomena e ganhou devoção popular entre parte dos moradores. Sua história deu origem a uma capela, uma imagem religiosa e uma celebração anual, transformando a tragédia em um marco da religiosidade local.
O fim da epidemia
De acordo com os registros de Sebastião de Affonseca e Silva, a epidemia começou a perder força entre dezembro de 1891 e janeiro de 1892, permitindo que os moradores retomassem gradualmente suas rotinas.
A história da “bexiga preta” permanece como um capítulo importante da memória de Araxá, reunindo os impactos de uma grave crise sanitária, as dificuldades enfrentadas pela população e o surgimento de uma tradição religiosa que atravessou gerações.
Fonte: HISTÓRIA – Arquivos, Pesquisas e Publicações da Fundação Cultural Calmon Barreto de Araxá, maio de 2006, Ano 16, nº 41. // Editor da coluna: Prof. Ms. Luciano Marcos Curi. É uma coluna elaborada por alunos e professores dos cursos de graduação e pós-graduação em História, do Centro Universitário do Planalto de Araxá (UNIARAXÁ). Observação: a coluna assinada não reflete a opinião da revista e é de exclusiva responsabilidade de quem o assina.