Veterinária Roberta Vilela explicou, durante o programa Vida de Pet, como são definidos os protocolos anestésicos, quais animais apresentam maior risco e por que exames e acompanhamento contínuo são fundamentais
A anestesia veterinária ainda é motivo de preocupação para muitos tutores, principalmente quando o animal precisa passar por uma cirurgia. Para esclarecer dúvidas e combater alguns mitos sobre o procedimento, a médica veterinária Roberta Vilela participou do programa Vida de Pet, da Rádio Imbiara, em Araxá, na sexta-feira, 21 de agosto. Especialista na área, ela explicou como a anestesia é planejada para cães e gatos e destacou a importância da avaliação individual de cada paciente.
Segundo a veterinária, não existe anestesia totalmente livre de riscos. O objetivo é justamente identificar as condições que podem aumentar as chances de complicações e adotar medidas para tornar o procedimento o mais seguro possível. "Não existe anestesia 100% segura. Todos os procedimentos têm algum grau de risco anestésico", explicou.
A profissional também reforçou que o risco não está relacionado apenas ao medicamento utilizado. O estado de saúde, a idade, o peso, o temperamento e até características específicas da raça podem influenciar na escolha do protocolo anestésico.
Sedação e anestesia não são a mesma coisa
Durante a entrevista, Roberta explicou que sedação e anestesia têm objetivos diferentes. A sedação busca tranquilizar o animal e reduzir sua atividade, enquanto a anestesia geral provoca inconsciência e permite a realização de procedimentos mais invasivos, com controle da dor.
Em procedimentos simples, dependendo do comportamento do animal, pode ser possível utilizar apenas sedação ou anestesia local. Já cirurgias como castrações, procedimentos abdominais e tratamentos odontológicos exigem, em geral, anestesia geral e intubação.
O temperamento também é levado em consideração. Um animal muito agitado pode apresentar uma resposta de estresse importante durante um procedimento, o que pode representar um risco adicional. Por isso, segundo a veterinária, o manejo começa antes mesmo da aplicação dos medicamentos.
Monitoramento acontece durante todo o procedimento
Uma das principais diferenças entre a ideia popular de "dar anestesia e deixar o animal dormir" e a prática veterinária está no acompanhamento contínuo do paciente. Durante a cirurgia, equipamentos monitoram diferentes parâmetros fisiológicos.
Roberta explicou que, nas clínicas onde atua, os animais são acompanhados por monitores multiparamétricos. São observados, entre outros fatores, frequência cardíaca, pressão arterial, oxigenação, gás carbônico e temperatura corporal.
A temperatura merece atenção especial, principalmente em animais pequenos e gatos, que possuem pouca massa corporal e podem desenvolver hipotermia com facilidade. "O tempo inteiro eu fico de olho no animal", resumiu a especialista ao explicar a necessidade de acompanhamento permanente.
A anestesia inalatória também permite ajustar rapidamente a profundidade anestésica de acordo com a resposta do paciente. Alterações na frequência cardíaca, na pressão e em outros parâmetros podem indicar que é necessário modificar o plano anestésico.
Exames antes da cirurgia ajudam a identificar riscos
Outro ponto destacado durante o programa foi a necessidade dos exames pré-operatórios. Um animal que aparenta estar saudável pode apresentar alterações que não são percebidas apenas durante uma avaliação clínica.
De acordo com Roberta, já foram identificados casos de animais jovens com doenças renais ou cardíacas que não apresentavam sinais evidentes antes da realização dos exames. Por isso, o protocolo deve ser definido individualmente, levando em consideração idade, condição clínica e tipo de cirurgia.
O perfil pré-operatório pode incluir hemograma e avaliações das funções renal e hepática, além de exames complementares quando houver indicação. Em animais idosos ou com doenças cardíacas, por exemplo, a investigação pode ser ampliada. "Aparentemente clinicamente saudável é diferente de a gente ver os exames", explicou a veterinária, ao defender que a avaliação antes da cirurgia não seja tratada como uma etapa dispensável.
Filhotes, idosos e animais com doenças exigem atenção especial
Os extremos de idade estão entre os pacientes que podem apresentar maior risco anestésico. Filhotes ainda estão em desenvolvimento, enquanto animais idosos podem apresentar alterações em órgãos importantes, além de uma recuperação mais lenta.
O risco aumenta ainda mais quando existem doenças associadas, como problemas cardíacos, renais ou câncer. Isso, no entanto, não significa que um animal idoso ou com alguma doença esteja automaticamente impedido de passar por uma cirurgia.
A decisão deve considerar os riscos e os benefícios do procedimento. Em alguns casos, não realizar uma cirurgia pode representar um perigo maior para a saúde do animal do que enfrentar o risco anestésico.
A doença periodontal foi citada como exemplo. Infecções graves na boca podem comprometer a qualidade de vida e, em determinadas situações, justificar um procedimento odontológico mesmo em animais idosos, desde que sejam adotadas as precauções necessárias.
Procedimentos odontológicos também podem exigir anestesia geral
A limpeza dos dentes dos animais é outro assunto que costuma gerar dúvidas entre os tutores. Segundo Roberta, procedimentos odontológicos que envolvem limpeza profunda, retirada de tártaro abaixo da gengiva ou extrações não devem ser tratados como procedimentos superficiais.
A anestesia geral permite manter o animal imóvel, controlar a dor e proteger as vias respiratórias por meio da intubação. O cuidado é especialmente importante porque durante o procedimento podem ocorrer sangramentos e produção de secreções.
A veterinária explicou que a intubação também oferece uma proteção adicional durante a cirurgia. O animal permanece com a via respiratória controlada, reduzindo riscos relacionados à aspiração de sangue ou outros materiais.
Recuperação também faz parte da anestesia
Os cuidados não terminam quando a cirurgia acaba. A recuperação anestésica também exige monitoramento. A retirada do tubo, por exemplo, deve ocorrer no momento adequado, quando o animal já apresenta condições de proteger novamente suas próprias vias respiratórias.
A equipe continua observando temperatura, pressão e outras funções fisiológicas. Em alguns procedimentos, o animal permanece internado até que esteja recuperado, alimentando-se e realizando normalmente funções como urinar e defecar.
Em animais idosos, a recuperação pode ser mais lenta. A hipotermia, a cicatrização e a retomada das funções normais também podem exigir atenção adicional.
Castração é considerada um procedimento de rotina, mas não é isenta de riscos
A castração foi outro assunto abordado durante o programa. Apesar de ser uma cirurgia realizada com frequência na medicina veterinária, Roberta ressaltou que o fato de ser considerada rotineira não significa que os cuidados possam ser reduzidos.
A castração de machos geralmente envolve uma intervenção mais simples, enquanto nas fêmeas é necessário acessar a cavidade abdominal. Em ambos os casos, porém, são necessários avaliação pré-operatória, anestesia adequada e cuidados no período de recuperação.
A veterinária também destacou os benefícios da castração, incluindo a redução do risco de alguns tumores relacionados à ação hormonal, especialmente os tumores mamários em fêmeas.
O pós-operatório também depende da participação dos tutores. Repouso, administração correta dos medicamentos e prevenção de que o animal lamba ou traumatize a região operada são medidas importantes para evitar complicações.
Doença do carrapato pode interferir em uma cirurgia
A entrevista também abordou situações em que doenças aparentemente não relacionadas à cirurgia podem aumentar o risco anestésico. A doença do carrapato, por exemplo, pode provocar alterações importantes no organismo, como anemia e redução das plaquetas.
Uma contagem baixa de plaquetas pode aumentar o risco de sangramentos durante um procedimento cirúrgico. Por isso, a realização dos exames antes da cirurgia é considerada fundamental para identificar alterações que não são percebidas apenas pela observação do animal.
Roberta reforçou que a decisão de anestesiar ou operar deve sempre levar em consideração o quadro completo do paciente e não apenas a necessidade imediata do procedimento.
Raça e porte também influenciam na escolha do protocolo
O peso é um dos fatores utilizados para calcular as doses dos medicamentos, mas não é o único. Algumas raças apresentam maior sensibilidade a determinados fármacos ou possuem características anatômicas que exigem cuidados adicionais.
Animais braquicefálicos, como cães de focinho curto, são um exemplo. As características respiratórias desses animais fazem com que a equipe precise redobrar a atenção durante a anestesia e a recuperação.
A veterinária também explicou que cães de diferentes portes podem receber doses diferentes por quilo de peso. Animais pequenos, em determinadas situações, podem necessitar de doses proporcionalmente maiores do que animais de grande porte.
Estresse e comportamento também entram na avaliação
Além dos aspectos físicos, o comportamento do animal é considerado na preparação para a anestesia. Gatos, por exemplo, podem apresentar níveis elevados de estresse quando são levados para ambientes desconhecidos.
Segundo Roberta, o atendimento deve buscar reduzir estímulos que aumentem o medo, evitando contenções desnecessárias e utilizando estratégias de manejo adequadas. Feromônios, petiscos e objetos com cheiro familiar podem ajudar nesse processo.
A preocupação não é apenas tornar o atendimento mais confortável. O estresse pode provocar alterações fisiológicas e dificultar a realização segura de determinados procedimentos.
Experiência reforça importância da preparação
Durante a entrevista, Roberta também relatou situações de emergência vivenciadas ao longo da carreira. Em um dos casos, uma cadela resgatada da rua apresentou uma parada durante a recuperação anestésica. A equipe suspeitou de um trauma torácico e conseguiu identificar uma alteração que precisava ser tratada.
O episódio, segundo a veterinária, reforça a importância de estar preparado para situações inesperadas. Mesmo com exames e monitoramento, algumas complicações podem surgir durante ou depois da cirurgia.
Por isso, a relação de confiança com o tutor também foi apontada como parte importante do atendimento. A orientação é explicar os riscos e benefícios de maneira clara, sem prometer que o procedimento será completamente livre de complicações. "Eu jamais vou falar para ninguém que vai dar tudo certo. Eu prometo que eu vou tratar como se fosse meu", afirmou Roberta.
Vacinação antirrábica começa pela zona rural de Araxá
Além da entrevista sobre anestesia, o programa também destacou a campanha de vacinação antirrábica de 2026. Em Araxá, a vacinação na zona rural está prevista para começar em 31 de agosto e seguir até 25 de setembro. A etapa urbana está prevista para o fim de agosto.
No primeiro dia, as equipes devem atender as regiões do Miguelinho, Fazenda Morro Alto, na divisa com Sacramento, Barra do Entrecosto e Córrego Fundo. A programação dos dias seguintes será divulgada conforme o andamento da campanha.
A orientação durante o programa foi para que moradores da zona rural facilitem o acesso das equipes às propriedades, mantendo as porteiras abertas nos dias previstos para a vacinação.
A imunização é uma das principais estratégias de prevenção da raiva, doença que pode atingir mamíferos e ser transmitida aos seres humanos principalmente pelo contato com a saliva de animais infectados. Segundo o Ministério da Saúde, a doença apresenta letalidade de aproximadamente 100%.
Os dados mais recentes da pasta mostram a redução expressiva da raiva canina no Brasil. O número de casos caiu de 635 em 2002 para 13 em 2025. Até junho de 2026, foram registrados seis casos de raiva em cães, todos relacionados a variantes virais associadas a animais silvestres.
A cobertura da vacinação de cães e gatos chegou a 78% no Brasil em 2025, segundo dados atualizados pelo Ministério da Saúde em junho de 2026. A pasta destaca que manter índices elevados e homogêneos de vacinação é fundamental para evitar a reintrodução e a disseminação da doença.
Para os tutores, a principal mensagem deixada durante o programa é que tanto a anestesia quanto a prevenção de doenças dependem de acompanhamento profissional e cuidados contínuos. No caso dos procedimentos cirúrgicos, avaliação prévia, escolha adequada dos medicamentos, monitoramento durante a intervenção e atenção no pós-operatório são etapas que ajudam a reduzir riscos e garantir melhores condições de recuperação para cães e gatos.