Números revelam que o maior perigo, muitas vezes, está dentro de casa
A violência contra a mulher continua sendo uma das mais graves questões sociais e de segurança pública do Brasil, e os números mais recentes mostram que o problema está longe de ser superado. Em 2025, o Ligue 180, serviço oficial do Ministério das Mulheres, recebeu 1.088.900 atendimentos e registrou 155.111 denúncias de violência, média de aproximadamente 425 denúncias por dia. No primeiro trimestre de 2026, a tendência permaneceu preocupante: foram 45.735 denúncias, 23% a mais que no mesmo período de 2025.
Os dados também ajudam a compreender quem são as mulheres mais atingidas. Entre as denúncias registradas pelo Ligue 180 em 2025, a faixa de 40 a 44 anos apareceu em primeiro lugar, com 15.117 registros (9,75%), seguida pelas mulheres de 35 a 39 anos, com 14.594 (9,41%), de 30 a 34 anos, com 14.173 (9,14%), e de 26 a 29 anos, com 13.789 (8,89%). Juntas, essas quatro faixas responderam por 37,19% das denúncias.
Quando se observa a natureza das agressões, a violência psicológica aparece como a mais frequente, com mais de 339 mil registros no Ligue 180 em 2025, correspondendo a aproximadamente 49,9% das violações informadas, seguida pela violência física, com mais de 104 mil ocorrências (15,3%). Também foram registrados 36.938 casos de violência patrimonial, 20.534 de violência sexual e 2.621 relacionados a sequestro ou cárcere privado, lembrando que uma mesma denúncia pode envolver mais de uma modalidade de violência.
E talvez esteja justamente aí uma das informações mais importantes para a sociedade: o agressor geralmente não é um desconhecido encontrado na rua, em contraposição ao esperado. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher 2025, do DataSenado, estima que, entre as agressões mais graves praticadas por homens, 70% tinham como autor marido, companheiro ou namorado, enquanto outros 11% eram ex-maridos, ex-companheiros ou ex-namorados e 7% eram pais ou padrastos; portanto, família e relações afetivas ocupam posição muito mais expressiva que pessoas desconhecidas.
A violência letal confirma essa realidade de maneira ainda mais dramática. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, o Brasil registrou 1.571 feminicídios em 2025, o maior número da série histórica, além de 4.189 tentativas. Já no Estado de Minas Gerais, foram 177 feminicídios consumados e 207 tentados, fazendo do Estado o segundo do país em números absolutos de mortes por razões de gênero.
Minas Gerais, apresenta um cenário que merece atenção especial: os 177 feminicídios registrados em 2025 significaram aumento de aproximadamente 4,4% em relação a 2024, quando haviam sido contabilizados 169 casos. Estudos científicos anteriores sobre o Estado também ajudam a revelar a estrutura desse fenômeno: em levantamento de feminicídios ocorridos entre 2016 e 2020, 83,71% dos autores eram parceiros íntimos, 6,39% familiares e 1,83% amigos ou conhecidos, evidenciando que a violência letal frequentemente nasce de relações de proximidade e confiança.
Araxá, segundo diagnóstico municipal produzido em 2025, oferece uma fotografia especialmente importante: entre 1.664 mulheres entrevistadas, 21% afirmaram já ter sofrido violência doméstica, enquanto impressionantes 67,7% não denunciaram o episódio, muitas vezes por medo, vergonha ou dificuldade de reconhecer os sinais da violência. O levantamento realizado pela Prefeitura, com participação de órgãos como Polícia Civil, Polícia Militar, Judiciário, Defensoria Pública e rede de assistência social, concluiu ainda que, assim como no cenário nacional, as agressões acontecem majoritariamente dentro de casa e são praticadas por companheiros ou ex-companheiros, mostrando que combater a violência contra a mulher exige não apenas leis e policiamento, mas também informação, acolhimento, autonomia econômica e coragem para romper o silêncio.
Esses alarmantes números, além de impressionar a população, indubitavelmente reforça a necessidade de mobilizar todos os setores da sociedade civil organizada, no enfrentamento dessa dura realidade._______________________________________________________________________
Fontes principais: Ministério das Mulheres/Ligue 180; Senado Federal/DataSenado; Fórum Brasileiro de Segurança Pública/Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026; Ministério Público de Minas Gerais; Assembleia Legislativa de Minas Gerais; Prefeitura Municipal de Araxá e estudo científico publicado nos Cadernos de Saúde Pública/Fiocruz.