José Maria da Trindade, que já fez o percurso a pé 18 vezes, chama atenção para riscos em trechos sem acostamento, circulação de caminhões e necessidade de equipamentos refletivos
Com o início da caminhada de romeiros de Araxá em direção ao Santuário de Nossa Senhora da Abadia, em Romaria, os cuidados com a segurança precisam acompanhar cada quilômetro do percurso. O trajeto tem cerca de 144 quilômetros e passa por trechos com intenso movimento de veículos pesados, o que aumenta a exposição dos peregrinos a riscos de atropelamentos e acidentes.
A orientação foi reforçada nesta quinta-feira (30), durante entrevista ao programa Embiara Notícias, da Rádio Imbiara, pelo engenheiro de trânsito José Maria da Trindade. Com experiência profissional na área e 18 peregrinações feitas a pé até Romaria, ele destacou que a combinação entre grande fluxo de veículos, caminhões e trechos sem acostamento exige atenção redobrada dos grupos que seguem pela rodovia.
Uma das principais recomendações é caminhar em fila indiana, sem ocupar a pista de forma espalhada. Segundo José Maria, os romeiros devem permanecer do lado esquerdo da rodovia, no sentido contrário ao fluxo dos veículos, para aumentar a capacidade de perceber a aproximação dos motoristas. “Não andar de fila de três ou de dois, andar em fila indiana, do lado esquerdo da rodovia”, orientou.
A recomendação também está de acordo com orientações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que orienta peregrinos a caminhar em fila única, no sentido contrário ao fluxo de veículos e, quando disponível, utilizar o acostamento. A PRF também recomenda evitar caminhadas à noite ou durante períodos de baixa visibilidade. Confira as orientações de segurança da Polícia Rodoviária Federal para romeiros
Visibilidade é fundamental durante o percurso
Outro ponto destacado pelo engenheiro é a necessidade de tornar os romeiros mais visíveis para quem está dirigindo. Roupas claras, faixas refletivas e outros equipamentos de alta visibilidade podem ajudar os motoristas a identificar os grupos com maior antecedência. “A refletividade das faixas é importantíssima. Ajuda muito para quem está caminhando e ajuda muito para os motoristas que estão vendo os romeiros”, afirmou José Maria.
O Código de Trânsito Brasileiro estabelece que, nas rodovias sem acostamento ou quando não for possível utilizá-lo, os pedestres devem circular pelos bordos da pista, em fila única e em sentido contrário ao deslocamento dos veículos, salvo situações em que a segurança fique comprometida.
Além da posição na estrada, o engenheiro chama atenção para um comportamento que pode aumentar o risco de acidentes: o chamado “zigue-zague” durante a caminhada. Segundo ele, os romeiros não devem retornar repentinamente à pista para buscar objetos que tenham caído ou sido levados pelo vento.
Um exemplo citado durante a entrevista foi o chapéu. A passagem de caminhões e carretas pode provocar deslocamentos de ar capazes de lançar objetos para longe. A orientação, nesse caso, é não voltar para a pista de forma repentina para recuperá-los.
Calçados e cuidados com os pés
O desgaste físico também merece atenção durante os 144 quilômetros de caminhada. Com o passar das horas, é comum que os pés fiquem inchados e surjam calos, aumentando o desconforto e podendo comprometer a forma como o peregrino se movimenta.
José Maria recomenda que os romeiros utilizem calçados já conhecidos e adaptados aos próprios pés, evitando estrear um modelo durante a peregrinação. “Utilizar o calçado correto, um calçado que você já está acostumado. Não inventa moda de pôr calçado que você não está acostumado a usar”, alertou.
Com o avanço do percurso, o cuidado precisa ser ainda maior, principalmente nos quilômetros finais, quando o cansaço físico se acumula. Entre os trechos citados pelo engenheiro estão regiões de retas extensas, onde a velocidade dos veículos pode representar um risco adicional.
Ele também mencionou a chegada a Romaria e o acesso utilizado pelos romeiros antes do santuário como pontos que exigem atenção, especialmente na saída da rodovia e na entrada para o caminho lateral.
Veículos de apoio também precisam de atenção
Os veículos que acompanham os romeiros para transportar alimentos, bebidas e outros itens também fazem parte da estratégia de segurança. José Maria alerta que esses automóveis não devem permanecer parados na pista durante as pausas.
A recomendação é procurar locais seguros, como acessos a estradas vicinais ou áreas com espaço suficiente para estacionar e permitir que os integrantes do grupo parem sem permanecer expostos ao fluxo da rodovia. “Na hora que parar, liga o sinal de alerta, dá um ré pra fora da rodovia, não fica com o veículo na pista lateral não. Sai fora da rodovia”, explicou.
A preocupação é especialmente importante em momentos de descanso, quando várias pessoas podem se concentrar ao redor de um veículo. Para o engenheiro, café, alimentação e outras paradas devem ser feitos longe da faixa de circulação dos veículos.
Engenheiro defende estrutura exclusiva para romeiros
Durante a entrevista, José Maria também voltou a defender a criação de uma estrutura lateral específica para os peregrinos no trecho entre Araxá e Pedrinópolis. A proposta, segundo ele, seria oferecer uma área de circulação mais segura, separada do tráfego pesado. “Essa pista de caminhada aqui dos romeiros até Pedrinópolis precisaria ser feita, uma pista lateral”, afirmou.
A preocupação está relacionada justamente à ausência de acostamento em parte do trajeto e ao crescimento do movimento de veículos pesados. Segundo o engenheiro, a presença cada vez maior de caminhões e bitrens torna a convivência entre pedestres e veículos ainda mais delicada.
Trânsito urbano também entrou na discussão
A entrevista também abordou problemas de mobilidade dentro de Araxá. Com experiência profissional em diferentes cidades, José Maria avaliou que intervenções pontuais, como sinalização, ajudam, mas não seriam suficientes para resolver os principais gargalos do trânsito municipal.
Entre as propostas apresentadas estão obras de maior porte, incluindo um elevado na região da Avenida João Paulo II e intervenções para melhorar a circulação em áreas de grande concentração de veículos.
Para ele, a discussão precisa considerar planejamento de longo prazo e a realização de obras de forma gradual, de acordo com a capacidade de investimento do município. “Agora, nesse caso aí, questão de obra, vai fazendo uma por ano. Vai fazendo uma de cada vez. Agora precisa ser feita”, afirmou.
O engenheiro também criticou soluções que, segundo sua avaliação, não consideram adequadamente o funcionamento geométrico das rotatórias. Na visão dele, o tamanho e o raio da circunferência interferem diretamente na capacidade de circulação dos veículos.
Outro ponto discutido foi o trânsito no entorno de escolas, especialmente nos horários de entrada e saída dos estudantes. José Maria defendeu estudos específicos para reorganizar o fluxo e citou a possibilidade de mudanças temporárias de sentido em determinados períodos, desde que sejam precedidas por análise técnica.
Educação para o trânsito como base da segurança
Ao final da entrevista, José Maria destacou que a melhoria do trânsito não depende apenas de grandes obras. Para ele, a educação dos motoristas e pedestres deve fazer parte de uma política permanente.
O engenheiro lembrou trabalhos de educação para o trânsito dos quais participou em Araxá e defendeu que o tema seja tratado desde a formação das crianças e continue sendo reforçado entre novos condutores. “No trânsito precisa ter uma matéria que chama-se educação para o trânsito”, afirmou.
A ideia é que a formação contribua para criar uma cultura de respeito às regras e de atenção aos usuários mais vulneráveis das vias. O próprio Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) reforça que pedestres são usuários vulneráveis e que a segurança no trânsito depende da responsabilidade compartilhada entre quem caminha e quem conduz veículos. Veja as orientações do DNIT sobre segurança de pedestres no trânsito
Para os romeiros que iniciam ou já estão fazendo o caminho até Romaria, a principal mensagem deixada pelo engenheiro é de que a fé e a tradição precisam caminhar junto com a prudência. Em uma rota compartilhada com veículos de grande porte e com trechos de infraestrutura limitada, atenção, visibilidade e respeito às regras de trânsito são medidas essenciais para que a peregrinação termine de forma segura.