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Postado em: 07/05/2026 - 11:17 Última atualização: 07/05/2026 - 11:18
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O problema não é a língua...

Por Sérgio Marchetti, convidado do blog Observação e Análise de Luis Borges

Outro dia, leitores de boa memória, escrevi sobre os filmes de faroeste e seus enredos repetitivos.  Mas, só para esclarecer, não os comparei com o Brasil. Naqueles filmes, os bandidos sempre acabam sendo presos.

Falando nisso, dia desses, o decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, fez um deboche irônico com o sotaque do ex Governador de Minas Gerais, Romeu Zema. Para o ministro, Zema falaria um Tétum — dialeto do Timor Leste, difícil de entender.

O problema, entretanto, não é a linguagem, até porque Romeu Zema tem ótima dicção, fala português com clareza, sem barbarismos e, orgulhosamente, com algumas pitadas de mineirês e gerundismos. Talvez Suas Excelências tenham se desacostumado de ouvir verdades e, assim sendo, é natural que estranhem ou não queiram compreender o vocabulário de pessoas sérias. Por isso, data vênia, discordo do ilustre magistrado.

Mas vamos à linguagem. Como em qualquer outro país, a evolução linguística criou novas palavras, eliminou algumas e transformou outras. O que me chama a atenção são as expressões que nascem de um contexto e migram para outro, além das palavras que são repetidas e se tornam vícios de linguagem. E, de tanto ouvi-las, talvez com um pouco de implicância, me sinto incomodado. Quando ouço "virar a chave", "caiu a ficha", “viajar na maionese” e outras bobagens compreendo as metáforas. Porém, estão muito banalizadas. Há algum tempo a frase da moda era: “é verdade”. Tudo era verdade. Vocês se lembram leitores atentos? Sei que estou sendo ranzinza, mas não deveriam ser usadas numa entrevista ou conversa formal. Cá entre nós, viajamos de trem, avião, automóvel, ônibus, motocicleta e até no tapete mágico, mas na maionese, não!

Outra expressão que não gosto é " fazer do limão a limonada". Sabem por quê? Porque no discurso o efeito semântico induz a algo inusitado, criativo; quando na verdade é facílimo. Quem não sabe que com limão fazemos a limonada está afastado de Deus.

E a palavra, "literalmente"? Virou abuso. Para que me entendam: uma amiga me contou que um conhecido comum havia morrido de rir, literalmente. — Pelo menos morreu alegre — eu disse. — Morrer de rir é maneira de dizer. — Respondeu nervosa. Não consegui ficar calado e retruquei: — mas você disse: literalmente, ou seja, de verdade!

Calma! Crítico leitor. Você está pensando em várias outras pérolas? O repertório é vasto. Temos mais, muito mais: círculo vicioso ou virtuoso, divisor de águas, surreal e outras expressões que, mesmo sendo corretas, estão desgastadas, “andam em boca de Matilde”, como diria um amigo próximo. Mas há erros que causam otite: nincho (deve ser quando o emissor é fanhoso). O certo é nicho. A nível de... (em nível ainda passa). Cabeleleiro, cabelereiro (não cortam bem). Vá ao cabeleireiro. Maqueia (vai ficar feia). Escolha quem maquia. Opita (coitado! Não tem opção). Opte por falar certo. Asterístico (não serve como marco). Use o diminutivo de astro: asterisco. Gratuíto (não elimina o pagamento). Para não pagar, tire o acento: gratuito. Rúbrica (não vale). Dê uma rubrica. Célebro (de quem pensa que sabe tudo). Use o cérebro. Seje (com “e” não vai ser). Apenas seja e esteja. Tinha trago (ainda bem que não trouxe). Para não se esquecer, use o teria trazido. Perca total (essa última é quando perde o dicionário). Ainda que seja ruim, prefira a perda e não perca tempo em praticar.

Não fique triste, herrar é umano.

Sérgio Marchetti

* Sérgio Marchetti é consultor organizacional, palestrante e Educador. International Certification ISOR em Holomentoring, Coaching & Advice (coaching pessoal, carreira, oratória e mentoria). Atuou como Professor de pós-graduação e MBA em instituições como Fundação Getúlio Vargas, Fundação Dom Cabral, Rehagro e Fatec Comércio, entre outras. É pós-graduado em Administração de Recursos Humanos e em Educação Tecnológica. Trinta anos de experiência em trabalhos realizados no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br

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